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29/07
A difícil arte de viver em condomínios

Um cachorro que uiva e late a noite toda; um sujeito expansivo que adora ouvir música no volume máximo; um gato que se acostumou a fazer a necessidades básicas no playground; uma pessoa descuidada que tem a mania de atirar embalagens usadas e cascas de frutas pela janela; um fumante inveterado que não consegue passar um minuto sequer sem dar uma tragada.

As situações descritas acima representam genericamente algumas das cruzes que os síndicos têm de carregar todos os dias. Mais do que cuidar de janelas quebradas e acompanhar de perto reparos na infra-estrutura de um prédio, eles têm de atuar como árbitros nas desavenças entre vizinhos; como psicólogos para moradores que vivem dramas existenciais; como educadores para crianças e adolescentes que tentam atormentar a vida dos vizinhos.

“Um prefeito, por exemplo, precisa cuidar de questões ‘externas’ como asfalto, iluminação e urbanização. Nós, síndicos, temos de lidar com os problemas pessoais dos moradores - desde a mulher que apanha do marido até a criança-problema. Não que eu fique correndo atrás desses dramas. No final, porém, eles acabam caindo no meu colo de um jeito ou de outro”, afirma Carlos César Torralba Prado, 50 anos, síndico do Condomínio Edifício Trianon, situado nas imediações do Shopping.

Desde tempos imemoriais, o homem tem sido obrigado a dividir espaço com seus semelhantes. Os primeiros registros de conglomerados urbanos datam de 15 mil anos atrás. Há cerca de sete milênios, surgiram no Vale do Indo (na Ásia Meridional), na China e no Oriente Médio as primeiras cidades propriamente ditas.

Algumas, como Jericó (na Palestina), Harappa (no norte da Índia) e Mohenjo-daro (no atual Paquistão), chegavam a reunir dezenas de milhares de habitantes. Por volta do ano de 1500, existiam apenas duas dúzias de cidades ao redor do globo com mais de 100 mil moradores. Em 1700, esse número havia subido para cerca de 40. No final do século 19, existiam mais de 300 conglomerados com populações superiores a 100 mil pessoas. Hoje, na Islândia, comunidades com 250 habitantes são consideradas oficialmente cidades.

Apesar de a história da humanidade registrar inúmeros casos de construções de grande porte ao longo dos milênios - as pirâmides do Egito e as catedrais góticas são prova disso -, os edifícios, em sua forma moderna, podem ser considerados dispositivos bastante recentes, criados para compensar a falta de espaço no meio urbano.

Até meados do século 19, o gabarito máximo encontrado nas grandes cidades européias era próximo de cinco andares. A introdução de novas tecnologias e matérias-primas (como o elevador, o concreto armado e as estruturas de ferro) permitiu que as construções, gradativamente, aumentassem de tamanho.

Condomínios verticais são realidades ainda mais recentes na história da humanidade. O Residencial Parque das Camélias, mais antigo empreendimento do gênero existente em Bauru, atingiu a maioridade há alguns meses apenas. Com aproximadamente 2.700 moradores (população superior às de municípios como Borebi, Fernão e Uru, na região de Bauru), distribuídos em 720 apartamentos, a “cidade em miniatura”, está prestes a completar 19 anos.

“Aqui, faço de tudo um pouco: sou administradora, ‘psicóloga’, intermediadora de conflitos”, explica a síndica Iracema Almas, que está no segundo ano de mandato. No Camélias, a exemplo do que costuma ocorrer nos demais condomínios, a maioria das problemas está relacionada a animais e som alto.

“Alguns moradores querem ter seu cão ou seu gato, enquanto outros não querem saber de dividir espaço com animais”, afirma ela. Atualmente, a convenção do Camélias proíbe presença de bichos no interior do condomínio.

Dispositivo semelhante consta no regulamento do Condomínio Edifício Jequitibá, no Jardim América. “Quando uma pessoa se muda para cá, avisamos sobre a proibição, para que não surjam problemas futuros”, diz Ãngela Kakazu, síndica do prédio, composto por 24 apartamentos.

No caso do Jequitibá, foi instalada recentemente uma comissão para estudar possíveis alterações no regulamento do condomínio. “Uma das solicitações que recebemos foi a mudança da regra sobre animais”, afirma Ângela. Até o momento, porém, não surgiu consenso sobre esse tema entre os membros da comissão.

Embora os animais sejam proibidos no Camélias, a administração do condomínio prefere analisar caso a caso. “Não podemos ser rígidos ao extremo pois, atualmente, bichos de estimação são considerados por muitos como parte da família”, pondera Iracema.

Bom-senso, aliás, parece ser a principal arma que os síndicos utilizam para lidar com os outros problemas que surgem (o barulho, principalmente). “Tento buscar o diálogo, até porque, muitas vezes a pessoa nem faz idéia de que suas atitudes estão causando incômodo ao vizinho”, salienta Ângela.

“O brasileiro tem uma cultura de casa térrea. Acha que suas ações não atrapalham a vida de quem mora ao lado. A melhor maneira de lidar com isso é tentar convencer a pessoa a mudar de atitude. Já que quer fazer barulho, por que não se unir aos vizinhos numa festa que promova a integração do condomínio, por exemplo?”, diz César.

Porém, nem sempre o método do diálogo mostra resultados. Nesses casos, os síndicos se vêem obrigados a recorrer a medidas severas, como notificações e multas. Relativamente, porém, os condomínios não chegam a apresentar grande número de problemas. No Camélias, por exemplo, são registradas, em média, dez reclamações formais de barulho por semana.

Segurança

Segurança talvez seja o fator que mais atraia famílias para os condomínios residenciais. “Posso sair de meu apartamento e deixar a janela aberta com a certeza de que ninguém irá invadi-lo”, pensa a professora Andréia Aguiar, 37 anos, moradora do Residencial Parque das Camélias.

Outro aspecto que costuma chamar a atenção das pessoas para a vida nos condomínios são os dispositivos de lazer disponíveis nesses locais (salões de festa, playgrounds, quadras esportivas e piscinas, dependendo do caso). O Edifício Trianon, na zona sul, conta até com uma academia, com personal trainer e tudo.

“Essa idéia foi ótima. Antes, eu precisava me deslocar para outros bairros para poder me exercitar”, afirma a dona de casa Solange Carneiro, que vive no local há três anos. A academia do Trianon entrou em funcionamento este ano.



Fonte: Jornal da Cidade de Bauru - Rodrigo Ferrari


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